Leilão Bidspirit | [MANUSCRITO; D. JOÃO V] CÓPIA


[MANUSCRITO; D. JOÃO V] CÓPIA DE CARTA, POSSIVELMENTE APÓCRIFA, DE D. FILIPA DE NORONHA A D. JOÃO V. Séc. XVIII. Bifólio de 4 pp. 35,2 cm x 22 cm. - Cuidada cópia, sensivelmente de época, duma suposta missiva de conteúdo delicado endereçada por D. Filipa de Noronha, filha do segundo marquês de Cascais, ao rei D. João V. Tratando-se, como a apresenta outra das versões conhecidas, duma «carta bastantemente picante», o texto aqui reproduzido parece ter suscitado sobeja curiosidade e gozado de alguma difusão manuscrita nos círculos da corte, ainda que o seu teor seja muito possivelmente pseudo-epistolográfico. D. Filipa de Noronha foi, como é consabido, a principal paixão juvenil do príncipe D. João, constando que este lhe teria chegado a fazer votos de noivado (conforme no cabeçalho desta transcrição se alega). O grosso da exposição prende-se com a desilusão e ultraje sentidos pela donzela face às negociações diplomáticas que, em 1707, precederam o casamento do recém-aclamado monarca com D. Mariana de Áustria. Na voz da remetente são colocados protestos pela alegada deslealdade do amante, bem como expressivos lamentos pelo escândalo em que se sentia envolta e pelo seu injurioso desterro do Paço, onde antes fora dama principal; remata dando conta da sua vontade de recolher a um convento, devolvendo todas as «jóias […] e grandeza» recebidas, esquecida do rei e da sociedade — desfecho efectivamente consentâneo com o que se conhece da sua vida ulterior, tendo professado no convento de Santa Clara de Lisboa. Testemunho sugestivo do imaginário cortesão da esfera joanina e da aura de galanteador que desde sempre envolveu este monarca, muito explorada por autores setecentistas e posteriores, são bem conhecidos os tratamentos dedicados a este trecho por Alberto Pimentel (1849) e Rebelo da Silva (1852-53) nas suas resenhas da vida sentimental d’ o Magnânimo . O primeiro deu à estampa, no seu popular As Amantes de D. Joã o V , a maior parte da versão subsistente na Biblioteca Pública de Évora, compaginando-a em notas com outra na Biblioteca da Ajuda — ambas as quais diferem da presente nalguns pequenos pontos de estilo e pormenor. Espécime bem caligrafado, com 31 linhas à página e sem rasuras; o cabeçalho apresenta contudo a suposta autora, erradamente, como filha do «marques de Canaes». Bom estado de conservação geral. Ligeiro desgaste às margens exteriores, sem ofensa ao texto salvo leve toque no fl. 2 r . Peça de colecção.