Leilão Bidspirit | [LONDRES; HANDEL, HAYDN; MOZART; BOCHSA;


[LONDRES; HANDEL, HAYDN; MOZART; BOCHSA; ROSSINI; MAÇONARIA; EISTEDDFOD; GALES] 11 FOLHAS DE SALA DO THEATRE ROYAL DRURY LANE, COVENT GARDEN E 1 DO FREEMASONS’ HALL. London. 1821; 1822; 1827. 19,5 cm x 11,5 cm. B. - Curioso volume de aparente fabrico caseiro contendo 12 folhas de sala de obras musicadas, onze das quais levadas ao palco do Theatre Royal Drury Lane, nos anos de 1821-1822, e uma referente a um festival galês realizado no Freemason’s Hall, em 1827. Estes folhetos compreendem os programas de apresentação de obras de grandes compositores como Handel, Haydn, Mozart, Bochsa, ou Rossini, entre outros. Elencam a equipa responsável pelos concertos e transcrição das partes vocais das obras em inglês e italiano. Algumas destas obras foram dirigidas pelo grande músico Sir George Thomas Smart (1776 – 1867), que começava já a singrar numa carreira que, décadas mais tarde, o elevaria a um dos mais respeitados maestros no Reino Unido. Smart ficou conhecido por ter mantido a tradição de apresentar com regularidade a grande música de George Frideric Handel, sendo um dos principais responsáveis pela sua manutenção no tempo. Foi um dos correspondentes de Ludwig van Beethoven — a quem ajudou a tornar conhecidas as obras em Inglaterra, tendo inclusive conduzido algumas peças do grande compositor no Theatre Royal Drury Lane — e um amigo muito chegado de outro grande nome da música ocidental: Carl Maria von Weber. Estes raríssimos documentos que a ANNO ora traz a martelo testemunham, de forma bastante clara, a permanência do gosto pela música do barroco final e do classicismo até bem tarde no séc. XIX inglês, e não um certo revivalismo como estava a acontecer na Alemanha, por exemplo, por iniciativa de outro nome fundamental da História da Música, o grande compositor e maestro Felix Mendelssohn, que, poucos anos depois, em 1829, recuperaria em concerto uma das mais belas e complexas composições criadas pelo génio humano: o oratório Matthäuspassion ( A Paixão Segundo São Mateus ), de Johann Sebastian Bach, hoje catalogada como BWV 244. O célebre dramaturgo e figura controversa Thomas Killigrew (1612 – 1683) construiu o primeiro teatro Drury Lane em Covent Garden em 1663, com autorização do rei Charles II, marido de D. Catarina de Bragança. Este teatro era pequeno, sensivelmente do tamanho do actual palco, e resistiu pouco tempo, pois ardeu em 1672. O segundo teatro de Killigrew, aberto em 1674, teve muito mais sucesso, funcionando durante 117 anos consecutivos. O Hino Nacional Britânico foi cantado pela primeira vez no seu palco em 1745, assim como a famosa canção patriótica Rule, Britannia! em 1750. Em 1794, o edifício foi renovado para acolher 3600 espectadores, um tamanho considerável para a época. No entanto, apenas 15 anos após as obras, um novo incêndio destruiu-o pela segunda vez. A partir de 1812, num belo projecto concebido pelo grande arquitecto Benjamin Dean Wyatt (1775–1852), o Theatre Royal Drury Lane ganhou a sua configuração anual. Entre 2013 e 2021 sofreu profundas obras de restauro, mantendo intactos os seus valores patrimoniais. O Theatre Royal Drury é o teatro mais antigo do mundo em uso contínuo no mesmo local e está listado como “Grade One” na lista da Historic England. O programa de 1827, encadernado sensivelmente a meio do volume, é um raríssimo folheto de um tradicional “Eisteddvof” ( eisteddfod ) galês — um festival ritualizado da cultura galesa de raízes medievais e reavivado no séc. XVIII que inclui concursos de música ou poesia; este sob os auspícios da The Royal Cambrian Institution, uma instituição promotora da cultura e história de Cymru, que, à época, era presidida por Sir Watkin Williams-Wynn (1772 – 1840), 5.º Baronete. A instituição havia sido fundada em 1751 e encontrava-se a recuperar a sua dinâmica após um período difícil, não só porque a primeira geração de fundadores tinha falecido, como as Guerras Napoleónicas dificultaram todos os aspectos da vida britânica. Estes concertos devem ser entendidos como reactivadores desta importante associação galesa londrina, que ficaria para a história como a The Honourable Society of Cymmrodorion, nome que ainda hoje ostenta. Sir Walter Scott era, nesta fase, por exemplo, e apesar de se aproximar do fim da sua vida, um membro muito activo do esforço desta “Second Cymmrodorion”, que se pretendia renascida. O facto do concerto se ter organizado no Freemason’s Hall pode ter sido mera coincidência, mas também pode estar relacionado com as origens da própria instituição, que surge da ruptura da Honourable and Loyal Society of Antient Britons, uma organização de beneficência para famílias e crianças galesas a residir em Londres, cujos rituais parecem ter tido inspiração maçónica. Alguns dos seus membros, ainda que poucos, eram pedreiros-livres activos, incluindo o 4.º baronete de Wynn, que chegou a fundar uma loja nas suas propriedades, mas as relações entre as instituições galesas e a maçonaria eram, aparentemente, ambíguas.