Leilão Bidspirit | Sue, Eugène – LE JUIF
Sue, Eugène – LE JUIF ERRANT. ÉDITION ILLUSTRÉE PAR GAVARNI. Paris. Paulin, Libraire-Éditeur. 1845. 4 vols. (6) 331 pp.; (6) 332 pp.; (6) 327 pp.; (6) 352 pp. 27 cm x 19 cm. E. - Primeira edição, ilustrada, completa e de excepcional raridade, do mais célebre romance folhetim de Eugène Sue, ornamentada com oitenta e três pranchas hors-texte e cerca de seiscentas vinhetas intercalares gravadas em xilogravura pelo mestre do desenho satírico Paul Gavarni, bem como um mapa desdobrável colorido à mão representando o itinerário do cólera-morbus. Esta edição de Paulin, publicada no mesmo anno em que se concluía a serialização do romance no jornal Le Constitutionnel, representa um dos projectos editoriais mais ambiciosos do romantismo francês e constitui, segundo os bibliógrafos, uma das melhores produções gráficas de Gavarni. Le Juif Errant foi publicado originalmente em folhetim no jornal Le Constitutionnel entre 25 de Junho de 1844 e 26 de Agosto de 1845, período durante o qual cativou milhões de leitores franceses com a história do judeu errante Ahasverus e da sua irmã Hérodiade, condenados a vagar pela Terra até ao fim dos tempos, e das vicissitudes de uma família protestante cuja herança cobiçada pela Companhia de Jesus se torna objecto de intrincadas maquinações. O romance constituiu um violento libelo contra os jesuítas, reflectindo as tensões anticlericais que agitavam a França de Luís Filipe, e conheceu um sucesso comercial sem precedentes, gerando contrafacções, traduções e adaptações teatrais por toda a Europa. Eugène Sue, nascido Marie-Joseph Sue em 1804, filho de um célebre cirurgião parisiense, começou a sua carreira literária como autor de romances marítimos, tendo servido como médico na Marinha francesa. Foi com Les Mystères de Paris, publicado em folhetim entre 1842 e 1843, que Sue alcançou a fama, popularizando o género do romance-folhetim social em França e estabelecendo-se como cronista das misérias urbanas e defensor dos deserdados. Le Juif Errant consolidou a sua posição como um dos romancistas mais lidos do século XIX, embora a crítica literária do seu tempo e posterior tenha sido amiúde severa quanto ao valor artístico das suas obras, acusando-as de melodramáticas e excessivamente didácticas. A presente edição ilustrada, lançada por Paulin em 1845 para capitalizar o extraordinário sucesso do folhetim, confiou a Paul Gavarni a tarefa de dar forma visual ao universo de Sue. Gavarni, pseudónimo de Sulpice Guillaume Chevalier, nascido em 1804 (o mesmo anno que Sue), era já então um dos mais reputados ilustradores franceses, célebre pelas suas litografias satíricas publicadas em revistas como Le Charivari e pelos seus álbuns de costumes parisienses. A colaboração em Le Juif Errant representou um dos projectos de ilustração de livros mais extensos da sua carreira, produzindo oitenta e três composições hors-texte e cerca de seiscentas vinhetas, iniciais decoradas, cabeças e caudas de capítulo que pontuam o texto. As xilogravuras, executadas por alguns dos melhores xilógrafos da época segundo os desenhos de Gavarni, capturam com notável eficácia dramática as cenas melodramáticas e as personagens arquetípicas do romance: jesuítas sinistros, heroínas sofredoras, vilões maquiavélicos e o próprio judeu errante na sua majestade trágica. Um elemento particularmente notável desta edição é o mapa desdobrável incluído no terceiro volume, intitulado «Itinéraire du Choléra-Morbus pestilentiel» ou «Marche progressive du Choléra Morbus en Asie et en Europe depuis 1817 jusqu'en 1832», gravado e colorido à mão. Este mapa, que documenta a progressão geográfica da pandemia de cólera que devastou a Europa e a Ásia nas décadas de 1820 e 1830, surge no romance como elemento narrativo crucial, pois Sue integrou a epidemia de cólera na trama, fazendo-a servir os desígnios fatídicos que perseguem as personagens. A presença deste mapa, frequentemente em falta nos exemplares sobreviventes, atesta a completude do presente conjunto. Os bibliógrafos são unânimes em afirmar que Le Juif Errant na edição ilustrada de Paulin é obra rara em boa condição. As razões são múltiplas: a popularidade do romance levou a um uso intensivo dos volumes, que circulavam de mão em mão; o papel, embora de boa qualidade, era susceptível ao foxing e à acidificação; as encadernações, frequentemente económicas, não resistiam ao manuseamento; e muitos exemplares foram desmembrados para se extrair as gravuras, comercializadas separadamente. Conjuntos completos dos quatro volumes, com todas as pranchas e o mapa, são hoje objectos cobiçadíssimos por coleccionadores de literatura romântica francesa e de ilustração oitocentista. Obra de importância capital para a história do romance popular francês e da ilustração romântica. Le Juif Errant na edição ilustrada de Paulin representa um momento culminante na colaboração entre literatura e artes gráficas no século XIX,