Leilão Bidspirit | JOSÉ MALHOA - 1855-1933


JOSÉ MALHOA - 1855-1933 - «Adelaide» da pintura ”O Fado”. JOSÉ MALHOA - 1855-1933 «Adelaide» da pintura ”O Fado” óleo sobre tela colada em madeira pequenos restauros assinado Dimensões (altura x comprimento x largura) - 40 x 54 cm Notas: integrou a Colecção Dr. Heribaldo Siciliano (1878-1943), São Paulo - Brasil, conforme etiqueta colada no verso, e, posteriormente, a Colecção Luiz Pinto Thomaz, provindo dos seus herdeiros. Não integra o Catalogue Raisonné, embora se conheçam as duas versões finais, bem como diversos estudos - vd. SALDANHA, Nuno - ”José Malhoa - Catálogo Raisonné”. Lisboa: Scribe, 2012, pp. 160-163, nº CRJM/0422, CRMJ/0424, CRJM/0425, CRJM/0426, CRJM/0427, CRJM/0428. O FADO DE ADELAIDE Estudo de figura para O Fado de José Malhoa, c. 1909 Nuno Saldanha Este estudo de figura para o quadro O Fado (1910), pintado por José Malhoa, é particularmente interessante, tanto do ponto de vista estético, como pelo importante documento que constitui, de uma das fases iniciais do processo de construção da imagem. O Fado de Malhoa, obra incontornável, não apenas no contexto da carreira do artista, como da arte portuguesa em geral, é indubitavelmente uma das suas criações mais emblemáticas, populares e divulgadas, para além da indiscutível qualidade técnica e compositiva. Não sem alguma controvérsia, e até escândalo, tanto elogiada por uns, como severamente criticada por outros, ao longo dos anos. Acabando por se converter numa imagem que imediatamente associamos ao artista, a sua importância foi construída mais pela historiografia e crítica da Arte, que por iniciativa do próprio Malhoa. A narrativa em torno de O Fado, não se limita à representação de uma cena boémia lisboeta. Por detrás da imagem imortalizada na tela, há uma história intensa, marcada por emoções cruas, conflitos sociais e, sobretudo, pela figura trágica e fascinante da mulher que serviu de modelo à protagonista feminina do quadro. Neste cenário realista e carregado de emoção, destaca-se Adelaide, cujo percurso trágico e profundamente humano reflete o peso social, moral e emocional que a mulher carregava nesse universo. A imagem constrói em torno dela uma narrativa de força e vulnerabilidade, simbolizando não só o espírito do fado, mas também a condição feminina num meio opressivo. Malhoa, pintor naturalista e atento observador da realidade popular, procurou retratar fielmente o ambiente típico do fado lisboeta, e para isso embrenhou-se na vida dos bairros mais típicos da cidade. O seu objetivo, não apenas meramente estético, procurava também captar a alma do povo, refletida no canto sofrido do fado e nas vidas dos que o interpretavam. Partiu em demanda das raízes mais antigas e originais sobre o tema, rejeitando o carácter burguês que o fado já na época assumira. Não satisfeito com o uso dos habituais modelos, que empregou nos primeiros ensaios, percorreu os bairros mais pobres e degradantes da capital, até encontrar quem lhe servisse de arquétipo, a até de consultor. As próprias origens do quadro, e da ideia subjacente à sua criação, nem sempre são coincidentes. O próprio Malhoa, e alguns dos seus biógrafos (Luta, 20 Mar. 1915), contam que ela surgiu a propósito de uma guitarra de fadista que o artista possuía no seu atelier, que o levou a interrogar-se sobre as origens do Fado. Segundo o artista, de acordo com uma carta escrita ao seu amigo e colega Julião Machado, e transcrita num jornal do Rio de Janeiro (O Paiz, 20 Jun. 1910), era um tema nunca tratado anteriormente, o que lhe dera o ensejo de se dedicar aquele assunto. Teria sido esta curiosidade que o levaria às ruas da Mouraria, e do Bairro Alto, em busca de mais informação. Outros, como Sousa Pinto, em 1928, referem, por sua vez, que a conceção original era a de narrar uma história trágica, na forma de um tríptico, com as três fases da perdição: a sedução, o fado e o desenlace (ou Fim), naquilo que Pinto associou ao “cruel e triste Fado”, pelo que o termo devia assim ser associado à ideia de Destino, mais do que à popular canção lisboeta. Esta versão é atestada pelos seus primeiros desenhos, datados de 1908, onde efetivamente se pode observar a primeira ideia. Ela parece ter surgido por volta de março de 1908, e não em 1909, o que se pode comprovar pelos desenhos assinados e datados pelo artista, de abril desse ano. (Fig.1) Esta datação está também de acordo com o relato do pintor, transcrito no jornal Imparcial (24 Fev. 1910), onde afirma ter levado dois anos a executar a referida obra. Toda a aventura que Malhoa teve de passar para a longa execução da pintura, foi descrita pelo próprio, nas entrevistas publicadas no Imparcial, em fevereiro, e depois, com um colorido novelista digno de memória, no periódico brasileiro O Paiz, sendo de assinalar algumas diferenças na narrativa. Anos mais tarde, o relato seria repetido numa entrevista ao jornal Luta (20 Mar. 1915), numa versão cada vez mais fantasista. Durante quatro meses o pintor percorreu os bairros de Alfama,