Leilão Bidspirit | DIOGO PEREIRA - ACT. C.


DIOGO PEREIRA - ACT. C. 1630-1658 - Incêndio de Tróia. DIOGO PEREIRA - ACT. C. 1630-1658 Incêndio de Tróia óleo sobre tela reentelado, restauros, ínfimas faltas na camada pictórica assinado com monograma DP Dimensões (altura x comprimento x largura) - 104 x 136 cm Notas: A representação da Tróia abrasada, tema clássico por excelência inspirado na Eneida de Virgílio, obra referencial da literatura europeia dos séculos XVI e XVII, mereceu uma rara atenção por parte do pintor português Diogo Pereira, que tratou o tema da cidade em chamas em duas dezenas de versões. Trata-se de um artista ainda injustamente esquecido, mas que no seu tempo atingiu níveis de fama, justificando elogios rasgados de autores como Félix da Costa Meesen e Pietro Guarienti, ambos bons connoisseurs de arte europeia. Não se sabe se o pintor, nascido cerca de 1600 e falecido em 1658, teve oportunidade de visitar o reino espanhol de Nápoles, cidade onde existem obras suas, mas é certo que conhecia a pintura napolitana (exposta em palácios peninsulares) pois é por demais visível a influência recebida de artistas como o misterioso Monsú Desiderio (François De Nommé, um francês de Lorena estabelecido em Nápoles). Na época conturbada do final do reinado de Filipe III e, logo a seguir, das guerras do Portugal Restaurado, Pereira trabalhou em contexto de crises e carências financeiras, mas nem por isso mereceu menos a estima de um mercado que, dentro e fora do Reino, lhe disputou as Tróias, os Infernos, os Sodomas, os Meses, as borrascas de mar e outras «desgraças» em que se tornou famoso como artista. As versões da Tróias de Diogo Pereira, que incluem a visão trágica da cidade grega em chamas, com o cavalo de Ulisses na praça, os combates de rua, e a fuga de Eneias levando às costas seu pai Anquises, são numerosas. Conhecem-se catorze versões, todas de engenho fantasista, com sua carga dramática, luminosidade sobrenatural, atmosferas apocalípticas e efeitos labirínticos. As Tróias que remanescem atestam as derivações da pintura de género napolitana, aliadas a uma veraz dimensão político-parenética que justificam a estima granjeada pelos fidalgos do partido de D. João IV. Três dessas Tróias, como a da colecção Franzini em Milão (que andara mal atribuída a François De Nommé, mas que tem o monograma D.P. do português), inspiram-se quanto ao grupo de Eneias e Anquises em gravura de uma fonte clássica, o Emblemata Liber de Alciato. Outras versões pertencem ao Museu Nacional Machado de Castro, ao Palácio Nacional da Ajuda, à Biblioteca Nacional de Portugal, a várias colecções particulares (uma delas de Paris) e, ainda, ao Palazzo Reale de Nápoles (com a assinatura D.P.). O elogio de Félix da Costa Meesen de que ele foi «genio raro, sempre se ocupou em incendios, Diluvios, Tromentas, noites pastoris, vistas varias de paizes com gados; no que foi tão celebre neste genero, como os mais peritos nas couzas de mayor empenho», é justificado pela grande originalidade deste tipo de alegorias, em que se tornou caso único na arte portuguesa. Que a esta fama se seguisse largo tempo de esquecimento (a glória só vai ressurgir na viragem do milénio após a exposição Rouge et Or no Musée Jacquemard-André em Paris em 2001), é um problema ainda misterioso. É de crer, porém, que as mesmas razões políticas que levaram a aclamar as Tróias de Pereira como pintura parenética pró-brigantina (vendo-se D. João IV como o «Novo Eneias» num tema que justificava a ideia da resistência dos povos face à tirania de Castela, como convinha à inflamada retórica anti-filipina de 1640) fossem as mesmas que, pacificado o Reino no século XVIII, passassem a olhá-las como memórias a esquecer… A verdade é que tanto o Conde de Tarouca, como os Marqueses de Borba, Nisa e Oriola, D. Diogo de Noronha, D. Tomás de Noronha e Nápoles, D. Manuel da Cunha (capelão do rei), D. António Álvares da Cunha (senhor de Tábua e fundador da Academia dos Generosos), o Dr. António Pinto Ribeiro, os membros das famílias Mascarenhas e Sousas, todos eles soldados da Restauração ou ligados à revolução de 1640, tinham quadros de Diogo Pereira com a cena da Tróia abrasada. Assinada por Pereira e datável dos anos 40 do século XVII, a grande Tróia que agora se apresenta oferece todo o repertório original de arquitecturas em chamas patente nas outras versões, mas tem como algo deveras surpreendente o facto de estar ausente de quaisquer figuras ! O silêncio que a tela expressa é total: nem os combates junto ao cavalo da traição, nem a fuga de Eneias com seu pai para o porto de mar, estão visíveis. Tal particularidade torna esta tela um caso de estudo muito interessante sobre o modus operandi de Pereira, reforçando a hipótese de que ele tinha colaboradores e que, muitas vezes, a introdução de figuras poderia caber a outros (conhece-se, aliás, um dos obscuros colaboradores do pintor, chamado Manuel Nunes). A ser assim, o processo seria idêntico ao que Maria Rosaria Nappi observou na obra napolitana de Monsú Desiderio,