Leilão Bidspirit | ALMANAQUE. Lisboa. 1959-1961.


ALMANAQUE. Lisboa. 1959-1961. - ALMANAQUE . Out. 1959-maio 1961. Lisboa: Grupo de Publicações Periódicas, 1959-1961. 18 v.: il.; 250 mm. Brochado. O ALMANAQUE foi uma revista financiada em Lisboa por J. A. de Figueiredo Magalhães (Editora Ulisseia), dinamizada por José Cardoso Pires e, mais tarde, por Luís de Sttau Monteiro, entre Outubro de 1959 e Maio de 1961, num total de dezoito números e um suplemento. Com um conselho de redacção onde surgem nomes como José Cutileiro, Baptista-Bastos, Augusto Abelaira e Alexandre O’Neill, assumiu desde o início uma vocação de intervenção cultural: um lugar de convívio e de circulação de ideias, “estrategicamente” instalado na Rua da Misericórdia, onde a actualidade e os rumores de Lisboa se encontravam com um olhar atento e corrosivo sobre os hábitos do tempo. O programa, tal como é evocado no texto, passava por ridicularizar os provincialismos culturais (cosmopolitas ou não), sacudir a complacência e insistir que certa austeridade podia ser, afinal, máscara de medo e de ausência de imaginação. Esse impulso traduz-se no eclectismo assumido: efemérides e actualidades (amplamente ilustradas), divulgação científica, política, literatura (conto e poesia), pintura, cinema, e também rubricas de entretenimento — da astrologia e quirologia aos passatempos, palavras cruzadas, testes e anedotas — compondo um retrato vivo, simultaneamente mundano e crítico, do quotidiano português. A revista procurou ainda oferecer uma “radiografia” do seu tempo, convocando figuras e acontecimentos internacionais (do cinema à música, do escândalo à tragédia, da guerra aos “tempos febris” do rock and roll, do jazz e da beat generation), ao lado de temas nacionais tratados com ironia e observação social. Entre rubricas marcantes, destaca-se “No Reino de Pacheco”, associada a Sttau Monteiro, onde se satiriza a “sandice nacional” e se joga com a máscara do anonimato; e a atenção a reportagens sobre países e costumes “além-fronteiras”, num contexto em que a televisão em Portugal era ainda incipiente. No plano material e gráfico, o ALMANAQUE beneficiou de uma orientação visual valorizada, com capas maioritariamente de Sebastião Rodrigues (e, mais tarde, colaboração de João Abel Manta), paginação de Pilo da Silva, fotografia de autores como Armando Rosário, Eduardo Gageiro e Mário Novais, e desenhos de vários colaboradores. O texto assinala também números especiais temáticos (como os dedicados aos “prazeres”, ao “lugar-comum” e aos “monumentos”), e um derradeiro número voltado para a noite, com suplemento próprio, reunindo ainda poemas e textos de autores portugueses, excertos, canções e exercícios satíricos — sinais de uma revista que quis ser, ao mesmo tempo, observatório cultural e laboratório de escrita. ¶ Daniel Pires, v.II, t.1, p. 39ss