Leilão Bidspirit | ORDINÁRIO PARA O OFÍCIO DIVINO
ORDINÁRIO PARA O OFÍCIO DIVINO DA ORDEM DE AVIS. Manuscrito sobre pergaminho. Portugal. Datado de 1303. 22 fls. num. de I a XXII. c. 300 mm x 200 mm. E. - O MAIS ANTIGO DOCUMENTO CONHECIDO DO SEU GÉNERO RELACIONADO COM A ORDEM DE AVIS, A MAIS ANTIGA ORDEM MILITAR PORTUGUESA. Produzido nos alvores do século XIV, este «tesouro em pergaminho» — na expressão do Professor Doutor Saul António Gomes, que lhe dedicou um estudo monográfico — é o testemunho mais recuado que se conhece da liturgia seguida pelos sacerdotes e cavaleiros de Avis, os «monges guerreiros» que, sob a observância de Cister e na dependência espiritual de Calatrava, protagonizaram a Reconquista e a afirmação do reino de Portugal. O ordinário fixava a ordem do ofício divino ao longo do ano litúrgico, permitindo hoje reconstituir os modos pelos quais a Ordem comungava da unidade da Igreja de Roma nos tempos medievos. A sua singularidade no panorama nacional é inequívoca. Escreve Saul António Gomes: «estamos perante um manuscrito único no panorama da história das Ordens Religiosas Militares em Portugal nos tempos medievos. Único pelos seus conteúdos e único dada a sua absoluta raridade e antiguidade. Um manuscrito, portanto, de excecional importância patrimonial e histórica.» A Dra. Maria de Belém Roseira, Conselheira das Antigas Ordens Militares, sintetiza-o como «uma peça singular da História de Portugal». O alcance histórico do documento excede o plano litúrgico. A Ordem de Avis está indissociavelmente ligada ao destino nacional: foi o seu Mestre, D. João, que as Cortes de Coimbra aclamaram rei de Portugal em 1385, fundando a dinastia de Avis — a casa de D. Duarte, do Infante D. Henrique e dos príncipes que abriram ao mundo a era das navegações. Este códice, anterior em oito décadas a esse momento fundador, documenta a vida espiritual da instituição no seu tempo de plena afirmação, quando, no início do século XIV, os freires de Avis, encabeçados pelo Mestre Fr. Fernão Rodrigues, negociavam junto do Sumo Pontífice a renovação dos seus hábitos e observâncias. Acresce que o códice conserva uma linha de proveniência contínua e documentada — raridade em manuscritos medievais portugueses em mãos particulares. Guardado na livraria de uma casa da Ordem, foi ali ainda anotado nos séculos XVII e XVIII, quando mão seiscentista desenhou no frontispício um cavaleiro de Avis e copiou o colofão do fólio final entretanto perdido; passou depois à posse de Eduardo Augusto Xavier da Cunha, ele próprio Comendador da Ordem de Avis, permanecendo na sua descendência até à integração na actual colecção do Dr. António da Silva-Araújo. O desenho do frontispício, ainda que esbatido, merece nota: representa um cavaleiro a cavalo de espada erguida, acompanhado, ao que parece, de duas cabeças decepadas — composição que a Dra. Marta Alexandre, Directora do Centro Interpretativo da Ordem de Avis, aquando da apresentação do estudo supra, identificou como sendo a figura de Giraldo, «o Sem-Pavor», conquistador de Évora em 1165, protagonista das armas daquela mesma cidade e figura considerada pelos freires como fundacional, ainda que não de facto, da Milícia de Évora. Esta está documentada apenas a partir de 1176, três anos após a morte de Giraldo, tendo-se instalado em Avis depois de 1211 —, pelo que o desenho vale como evocação retrospectiva do herói fundador da cidade e cujas lendárias acções militares dariam origem à Milícia, ao gosto da historiografia seiscentista, e não como um mero retrato de um freire de Avis. O desenho testemunha assim que, em Seiscentos, o códice era já guardado com respeito e como reserva de memória identitária da Ordem, e não como livro de uso. Manuscritos medievais desta natureza tornaram-se de extrema raridade no mercado internacional, progressivamente absorvidos por instituições públicas e privadas que os subtraem definitivamente ao comércio. Em Portugal, espécimes comparáveis — forais, livros de horas, códices litúrgicos medievais — praticamente desapareceram dos catálogos desde meados do século passado. Nenhum outro ordinário medieval de uma ordem militar portuguesa é conhecido em mãos particulares e nenhum resiste na Ibéria com esta antiguidade. Manuscrito litúrgico sobre pergaminho, aparentemente de ovino, c. 300 mm × 200 mm, 22 fólios com numeração romana (I–XXII) ao centro da margem de cabeceira, numeração aparentemente quinhentista, evocando as que se encontram nos forais manuelinos do primeiro terço do século XVI. Subsistem quatro cadernos — um quaterno (fls. I–VIIIv), um terno (fls. IX–XIVv) e dois bínios (fls. XV–XVIII e XIX–XXI, este incompleto) — verificando-se a falta de fólios entre o segundo e o terceiro cadernos. Escrita gótica a tinta castanho-escura, em coluna única regrada; rubricas a vermelho; iniciais filigranadas a vermelho e azul; fólio inicial com cercadura ornamental a vermelho abrindo com o «In Resurrectione Domini ad Missam Introitus = Intróito da Missa da Ressurreição». Colofão com a data de 1303,